quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Pra não perder o carnaval

Pessoal: o negócio eh cantar no meio do salão (ou perto da mãe), bem alto, essas marchinhas que eu pesquisei entre os mais antigos foliões que conheço (pessoalmente)

Você precisa conhecer Dois Unidos
Você precisa conhecer a Detenção
Você precisa levar pedra pesada
Nessa cabeça rapada
Pra deixar de Ser Ladrão

Você pensa que o tomate é caro...

Caro é Alho!
Caro é Alho!

Você pensa que A mulher é manga
Mulher não é manga Não
Manga você descasca e chupa
Mulher não se desgasta não...

(bom carnaval aos dois, talvez três, leitores dessa joça jogada as moscas:D)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O sabor das azeitonas

Nove anos. Quase duas mãos inteiras de dedos pra cima. Quando cheguei aqui no bairro eu só levantava uma mão quando me perguntavam quantos anos eu tinha. Nem acredito que cheguei até aqui. Até parece que foi ontem que eu era da alfabetização e meu pai lia para mim tudo que eu não entendia no mundo. Dos letreiros de ônibus aos livros. Não conhecia ninguém na rua. Não sabia brincar de nenhuma brincadeira que os meninos brincavam. No futebol era um dos últimos a ser escolhido. Ninguém me falava um segredo, por menor que fosse. Mas hoje estou aqui entre os primeiros a ser escolhido e sei da vida de todos os meus amigos.
Inclusive os meninos mais velhos que apareciam de tempos em tempos com aquela sacola cheia de azeitona preta. As mais gostosas que eu já havia comido. Eu perguntava onde eles achavam tanta azeitona assim. Era segredo, mas eu insisti tanto, emprestei tanto meus brinquedos, convidei tanto para irem a minha casa que certo dia o Tobias me falou aonde eles iam toda tarde depois da escola. Pedia para ir junto, mas eu era muito novo. Minha mãe não ia deixar, e a mãe de algum deles deixava? Se soubessem, duvido que deixassem. Custou, custou, custou até eu consegui ir com eles.
Certo dia o Marquinhos esqueceu a sacola e todo mundo ficou com preguiça de ir pegar em casa. Eu morava mais perto. Pediram para que eu pegasse. Falei que só ia se eu fosse junto. Junto pra onde, menino? Queriam desconversar. Eu disse que sabia do lugar secreto e que só pegava a sacola se eu fosse também. Ta, pega. Foi o que Tobias disse pros outros três. Os outros não acharam boa idéia. E se eu me acidentasse? Fizesse alguma merda como chorar, falar para a mãe de algum deles ou coisa do tipo? Ele falou para todo mundo sossegar, que eu já me garantia. Ele tomava conta de mim, como se eu precisasse de babá aos nove anos.
Tobias já tinha onze, já era adolescente. Eu o achava meu melhor amigo. Foi comigo pra minha casa tomar um copo d’água e pegar a sacola. Os outros seguiram na frente. Coloquei a sacola no bolso da bermuda e fomos andando. Nem sei quanto tempo andei. Acho que uns trinta minutos. Cada vez tinha menos casa e mais mata. Até que a gente chegou no muro do Golfe Clube. Era maior que eu e Murilo. Devia ter quase dois metros. Tentei, mas não tive força para levar o corpo pra cima. Pedi um calce. Ele me pediu as sacolas. Disse que só dava se ele me desse um calce. Ele soltou um sorriso, mandou eu me fuder, subiu em menos de cinco segundos, e pulou pra dentro do terreno do Golfe Clube. Aquilo me deixou com tanta raiva que eu acabei pulando no muro e subi quase morrendo.
Tobias estava começando a andar por um matagal e eu chamei o nome dele. Ele olhou surpreso. Vai ficar aí em cima ou vai entrar? Pulei e já fui andando no passo dele. Mais cinco minutos por uma trilhazinha escondida no mato. Cheiro de bosta, de lama, e de capim molhado. Um monte de mosquito passando e entrando na minha boca e no olho, que eu cuspia tudo para fora. O sol deixou a minha camisa grudada nas minhas costas. O suor também escorria pela minha testa e acabava pingando pelo meu nariz. Andamos até encontrar os outros escondidos por detrás de um arbusto. Nessa hora Tobias colocou a mão no meu peito e diminuiu o passo, andou agachado e eu fazia tudo que ele fazia. O vigia ainda não tinha largado. Era só esperar mais um pouco eu ia finalmente conhecer o lugar secreto.
Ficamos falando baixinho. De jogo, de desenho, das meninas, da mãe um do outro de como era a escola e tudo mais. Até Marcelinho dar o veredicto positivo. As portas do paraíso estavam desprotegidas e nós poderíamos invadi-lo. Eles andaram por mais uns cinco minutos e acabamos saindo no campo de golfe.
Chamar aquilo de campo de golfe seria pecado. Era feito o céu de tão bonito. Com aquela grama verdinha e bem aparada, as árvores compridas fazendo bosques aqui e acolá, os morrinhos onde a cor da grama ficava diferente e eu sabia que era onde estavam os buracos onde a bolinha devia ir. Não tinha um muro, uma parede, um prédio, um adulto, uma menina, nada que não fossemos nós e um monte de aventuras miraculosas vindas da cabeça de meninos suburbanos.
E a gente correu, gritava uhrrú pro vento, dava cambalhota, estrela, bunda canastra e o escambau. Até que chegamos aos pés de azeitonas pretas. Carregados de mal manterem-se em pé. Subíamos em todos feito macacos. Árvores feitas para a altura de meninos arteiros como nós. Que não ligavam de pular de um galho para outro e nem tinham vertigem quando olhavam para o chão.
Naquele instante descobri o motivo daquelas azeitonas serem mais gostosas do que as que meus pais compravam na feira. Eu tinha deixado de ser o menino da minha mãe naquele dia. No passar daqueles dias acabei aprendendo a ir sozinho pro paraíso. Se bem que era muito melhor ir com meus amigos.
Agora eu queria mais, e tudo que passava na minha cabeça era prever o futuro e saber quantos dedos teria de levantar até finalmente dar um beijo desses que só via na novela.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Já nem imaginava q ano novo tivesse tanto poder ...

Nesse ano aconteceram varias coisas que eu não imaginava que pudessem acontecer: eu morar fora de casa, tirar carteira de motorista e ficar solteiro. quero só ver o que vai ser 2009. eu não espero mais nada a n ser as (boas) surpresas :)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O mundo novo

- Mãe?
- O que foi?
- Por que tem tanta gente morrendo esses dias?
- Porque estão com medo de encarar o novo mundo.
- E é pra se preocupar?
- Depende do que você espera do mundo novo, agora passe mais um pouco dessas latas para a casamata.
- Claro, assim que terminar de montar mais esse rifle eu faço isso.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A tristeza de quem está só é não ter com quem comemorar as vitórias.
Elas morrerão com ele.
E a história vai fazer questão de esquecê-las, como se elas nem houvessem existido.
Essa é a verdade
Por isso ele publica algo. Para dizer ao mundo “estou vivo” mesmo não estando mais entre os reles mortais como nós.
Vamos torcer para que o nosso arqueólo que a vida nos der ache nossa vida interessante.

É bom estar de volta.



(modo 'olhar de safado on) vem pro pau, fia, vem :P (olhar de safado off)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Torpdedo 1, disparar!

Ele estava no pátio quando ela chegou. Amigos em comum. Recife é um ovo. Podia ser o vinho, podia ser o fato que ela lhe chamou a atenção e queria uma forma de se aproximar. São apenas elucidações. O que importa é que estava tão de bem com a vida que resolveu arriscar. O máximo que poderia acontecer era ser ignorado e a vida seguiria seu inexorável curso.
Após confirmar alguns dados a respeito dessa moça, rasgou um pedaço (em branco) da agenda cultural que acabou servindo de apoio. Escreveu o bilhete e lhe entregou no meio da conversa que ela estava tendo com os amigos. Se ela aceitasse o papel significava que estava sento oficialmente desfiada. Tomou a dianteira e disse que a resposta da pergunta que estava lhe fazendo só poderia acontecer daqui a cinco minutos. Ele não é de brincar com esses assuntos sentimentais.
Ela leu “Torpedo é apenas cantada ou é poesia?”. Aparentemente nada intrigante. Poderia descartar e seguir sua vida nos mesmos moldes que falamos acima. Mas preferiu entrar no jogo e seguiu as regras que ele havia imposto. O desafio estava aceito. Dentro de cinco minutos, escrito no verso do papelzinho estava “Torpedo é intensão e prática. Fórmula hig tech dos amores urgentes e modernos.”. Ele procurou outro pedaço de papel na mesma agenda cultural, rasgou-o e lançou no campo de batalha dos seus olhos.
“Torpedo é para: paixões, promover as vontades ou ser presente na vida dos outros de agora por diante?”. Não acreditou que a coisa iria além daquele ponto e logo tratariam de iniciar o diálogo vis a vis. Esperou por ela tomando seu vinho e comentando com os amigos as performances dos escritores que se apresentavam na recitata.
Ela queria continuar jogando. Apareceu no meio desses comentários a respeito dos outros como alerta de e-mail novo do menssager. Soltou até barulhinho, vejam só! Ele brincou dando dois cliques na mão dela antes de pegar a resposta de seu segundo torpedo. Atrás de sua mensagem estava “Torpedo é mensagem fugas. A msg vai, as paixões ficam e enter.”
Estava tudo indo rápido demais. Talvez ela quisesse dizer que o não estava mais a fim de perder tempo no joguete. Precisava agir, pois ela não passaria daquele ponto. Partiu para a abordagem mais direta que poderia propor naquele momento. Novo pedaço de papel de agenda cultural destacado, cuidadosamente escolhido para não danificar o seu conteúdo. Entregou-lhe novo torpedo nos mesmos moldes de sua adversária. Decidiu resolver tudo de uma vez. Ela leu “Ah, então blz. Me dá teu tel, msn e orkut p/ celebrar essa rápida falta. Principalmente de tempo.”. Ele recebeu como resposta “E eu que pensava q estávamos montando um poeminha coletivo! Ha ha ha. ______________@hotmail.com”. Era o fim daquele jogo, já tinha conseguido o que queria. O que viesse depois daquilo seria lucro para alguém sem muitas pretensões.
Quando essa mensagem chegou ambos já estavam se principiando em uma conversa, que seguiu para um bar junto aos amigos. Conversaram mais próximos e acabou-se a noite com uma tentativa de beijo que não se concretizou quando estavam se despedindo. Ela falou que precisa lê-lo antes de tomar qualquer decisão nesse sentido.
Ele aceitou que ela o leia com mais profundidade. Deixou disse que iria expor o que falaram e se ela comentasse a esse respeito poderia lhe mostrar algo mais. Será que ela está disposta a mais um tiro nessa guerra ou vai assinar a rendição?
O prazo estabelecido é de duas semanas a partir desta publicação.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Burocratização

Chego à sede da SAESBRAS (Secretaria da Agencia Especial de Sistemas Brasileiros) precisamente às dez e trinta. Há pouco tempo eles conseguiram chegar à categoria de Ministério. Está na hora de cobrar favores e fazer novos negócios. Deixei meu assessor direto ajudando o meu gerente de deslocamento estacionando o carro da empreiteira. Prefiro tratar desses assuntos com Otávio com o máximo de discrição possível.
Exceto pelo coordenador de políticas de segurança e o técnico de higiene ambiental não há mais ninguém no hall da repartição que eu ja tenha visto. os outros duzentos devem ser funcionários temporários estagiários. Nenhum deles me cumprimenta, porém me acompanham com os olhos até a entrada do elevador.
Aguardo em silencio. Quando as portas metálicas abrem, entro e digo meu destino ao técnico de transporte vertical. Ele pressiona o botão e subimos ao som de um teclado tocando Beatles que está lá para despistar o barulho do pequeno ventilador de hélices azuis. Sobem e descem em andares seguintes vários técnicos em produção textual digital e alguns auxiliares administrativos direcionadores de documentação específica e pagamentos bancários. Cochicham sempre quando falam de alguém. Não dizem nomes, apenas apelidos, salas, siglas e em alguns casos raros, as funções especificas. Os superiores são o principal alvo das criticas. Parece nenhum deles merece a função adquirida tamanha a incompetência atestada por seus subalternos. As informações costumam ser confirmadas ou negadas pelo técnico de transporte vertical.
Chego ao meu andar. O aroma de café e nicotina dos corredores está em todos os ambientes que percorro. Mantém os funcionários passivos e acordados. As conversas que saem das salas são semelhantes as do elevador. O som de campanhas telefônicas é a musica do lugar. Graças ao auxilio de outro técnico terceirizado de higiene ambiental consigo chegar até a sala do superintendente designado pelo ministério.
Abro a porta de vidro de uma sala decorada com a foto do presidente, uma bromélia, carpete vermelho, luz branca, dois conjuntos de sofás para as visitas constantes e um bebedouro. Como guardiã da sala do superintendente encontra-se uma mulher por trás de um balcão. A assessora de compromissos e direcionamento pessoal despacha o técnico de reprodução de documentação e afins. Ele passa com a pilha de pastas etiquetadas pelo caminho que entrei. Em menos de cinco minutos ela já havia atendido quatorze ligações. Não repassou para o superintende nenhuma. Ele estava em uma reunião com o secretario de desenvolvimento ordinário e o assessor do primeiro ministro da Birmânia e pediu para não ser incomodado. A moça de voz cantada e com sotaque carioca anota os recados porque não há prazo para o fim da reunião. Mas deve ser em breve, pois ele embarcará ainda hoje para Brasília para outra reunião de apresentação dos resultados e avanços dos últimos cinco dias. Quando ela me percebe, abre um sorriso, liga para o seu superior, me anuncia e diz que o superintende já está me aguardando. Me indica a porta que está localizada no fim do corredor atrás dela.
O superintendente usa um gabinete do tamanho de um apartamento de beira mar. Avisto Otávio no canto da sala. Está sentando perto dos janelões. Apesar das duas cadeiras dispostas defronte ao birô do meu colega de partido, no seu colo sua estagiária aprende informática passeando pela apresentação de slides em Power Point que ele vai utilizar na reunião de Brasília. A aula deve estar muito interessante. Ela não para de rir e ele não para de brincar de bolinar o corpo da aluna. Otávio está maior do que na época da campanha. Do jeito que está vai entra na faca pela segunda vez em menos de três meses. Quando me percebem ele pede para ela procure o técnico de reprodução de documentação e afins para que ele providencie cinco copias daquela apresentação. Ela sai da sala caminhando como se estivesse em uma passarela e me dá um sorriso safado quando passa ao meu lado. Em seguida Otávio me pede para sentar numa das cadeiras localizadas a frente da sua mesa. Quando me sento ele pega o telefone e pede a sua assessora de compromissos e direcionamento pessoal encontre a gerente de serviços gerais ligados a cafeína e providencie dois cafés para o convidado dele e ele próprio. Pergunto do pessoal do partido. Ele fala de alguns, avisa dos outros possíveis candidatos que vão ser levados a aprovação na próxima convenção do partido. Fala que as alianças estão quase fechadas e sorrimos quanto ele fecha comigo para não se candidatar ao cargo. Saiu um pouco salgado, mas tiro essa diferença na próxima licitação que ele aprovar para mim na Câmara. Quando acabamos os negócios podemos nos assumir como da mesma família.
- E então Marcos, como anda o pessoal lá de casa? A tia Nita ta boa?
- A enfermeira disse que ela está ótima. Só que anda reclamando do sobrinho dela que não aparece mais. Passa lá em casa esses dias, cara.
- Acho que passo lá essa semana. E o teu filho, ta grandão, hein?
- Era até uma coisa que queria falar contigo. Ele já tem idade de arrumar um emprego para aprender o valor do trabalho. Tem como encaixar teu afilhado aqui não? Pode ser qualquer coisa. É só para aquele vagabundo ter uma desculpa para acordar antes das onze e ficar em outro lugar que não seja no bar ou na praia.
- Fechado. Amanhã ele assume o cargo de Gerente Regional de Políticas Auxiliares. Vou dar um salário de cinco mil para ele ok?
- Otávio, o menino ta com vinte e poucos anos. A mãe dele vive me enchendo o saco. Ele quase não aparece na faculdade. Ele não tem o mínimo de responsabilidade. É só um empreguinho de meio período para ocupar o tempo ocioso dele. Se você der cinco mil na mão desse menino e ele não chega nem ao fim do mês de tanto pó. Já me basta o que tive de gastar naquele caso do mendigo.
- Ah sim. Então coloco ele como assessor técnico de fiscal de obras. Três mil de salário, mais vale alimentação e uma cota de passagem de quinhentos reais. Ele só aparece aqui para assinar o ponto e fica aqui me ajudando em qualquer coisa. Tá bom pra você?
- Acho que você não está entendendo Otávio. É para ser um empreguinho simples. Coisa de salário mínimo...
- Ah, aí já não é comigo. Emprego de salário mínimo só se for via concurso público.